Ecoando europeus, premiê do Canadá diz que mundo passa por 'ruptura' na ordem mundial
21/01/2026
(Foto: Reprodução) Premiê do Canadá critica postura de Trump e fala que mundo passa por 'ruptura' em discurso em Davos
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, afirmou na terça-feira (20) no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, que o mundo passa por uma "ruptura" da ordem mundial.
Apesar de não ter citado os Estados Unidos ou o presidente Donald Trump de forma direta, Carney foi contundente em seu discurso e deixou claro que suas críticas eram direcionadas às ações de Trump, que segundo ele que levaram o mundo a essa realidade.
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“Serei direto: estamos no meio de uma ruptura da ordem mundial, não de uma transição. (...) O fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade brutal, em que a geopolítica das grandes potências não está sujeita a nenhuma restrição. (...) Todos os dias somos lembrados de que vivemos em uma era de rivalidade entre grandes potências, que a ordem baseada em regras está se esvaindo, que os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”, afirmou Carney.
Carney disse que o Canadá sempre se esforçou para seguir a ordem mundial baseada no multilateralismo, instaurada principalmente após o fim da 2ª Guerra Mundial, e na cooperação entre os países, porém, segundo ele, essa lógica não funciona mais.
Segundo o premiê canadense, a atual crise mundial ocorreu por conta de uma série de crises —financeiras, sanitárias, energéticas e geopolíticas— ocorridas nas últimas duas décadas, que expuseram os riscos da "integração global extrema".
"Mais recentemente, as grandes potências começaram a utilizar a integração econômica como arma, tarifas como instrumento de pressão, infraestruturas financeiras como mecanismo de coerção, cadeias de suprimento como vulnerabilidades a serem exploradas. Não é possível viver da mentira de benefício mútuo [das nações] por meio da integração quando a própria integração se torna a fonte da sua subordinação", disse, sem citar diretamente os EUA nesse trecho.
Primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, discursa no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, em 20 de janeiro de 2026.
REUTERS/Denis Balibouse
A fala de Carney foi na mesma linha de líderes europeus que também discursaram na terça, como a chefe da União Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente da França, Emmanuel Macron. Enquanto von der Leyen afirmou que o mundo está "entrando em uma nova ordem mundial", Macron disse que "não é hora para imperialismos". (Leia mais abaixo)
Em seu discurso, Carney também voltou a criticar a investida de Trump para anexar a Groenlândia, ilha do Ártico que pertence à Dinamarca e vizinha ao Canadá. O premiê canadense disse se "opor firmemente" às tarifas de 10% que o presidente norte-americano ameaçou impor sobre países que se opuserem à sua investida. Carney também afirmou, pela 2ª vez nos últimos dias, que o Canadá honrará o tratado da Otan e defenderá a Groenlândia em caso de invasão militar dos EUA.
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O presidente da França, Emmanuel Macron, criticou na terça-feira (20) as investidas de Donald Trump contra a Groenlândia e, em última instância, contra a Europa. As críticas ocorreram durante discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.
Fazendo referência a Trump, Macron disse que "não é momento para imperialismos e colonialismos". Afirmou que a União Europeia não deve se curvar à "lei do mais forte" e que, embora seja "estarrecedor", o bloco considera usar seu "instrumento anticoerção" contra os EUA, aliado histórico da Europa.
"Preferimos o respeito aos valentões. Preferimos a ciência às teorias da conspiração e preferimos o Estado de Direito à brutalidade", disse.
No discurso, o presidente francês defendeu ainda a atuação da Europa de frear a investida de Trump, que tem afirmado que líderes europeus demoram para responder a crises. "A Europa pode ser lenta, mas somos previsíveis e temos regras da lei, o que é uma vantagem nos dias atuais", discursou.
Macron também defendeu a entrada de mais investimentos na Europa provenientes da China, rival econômica dos EUA e cuja presença no Ocidente o governo de Donald Trump vem tentando limitar.
Macron disse ainda que a Europa seguirá "ao lado dos nossos amigos da Dinamarca, quando eles estão sendo pressionados. É o que se espera de um aliado".
Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que "a velha ordem mundial acabou" e não deixou de apontar o culpado por isso: Donald Trump. Ela afirmou também a UE será "inflexível" diante das ameaças dos EUA contra a Groenlândia.
Von der Leyen disse que a Europa "precisa se adaptar à nova arquitetura de segurança e às realidades que enfrentamos atualmente", indicando que não é mais possível confiar nos EUA como seu principal aliado, diferentemente da realidade das últimas décadas.
"Agora vivemos em um mundo definido por poder bruto, um mundo cada vez mais sem leis. A Europa precisa de suas próprias alavancas de poder", reiterou a chefe da UE nesta quarta-feira.
Presidente da França, Emmanuel Macron, aparece vestindo óculos escuros em discurso no Fórum Econômico de Davos em 20 de janeiro de 2026.
REUTERS/Denis Balibouse