Viktor Orbán corre o risco de ser desbancado do poder na Hungria por um ex-aliado
11/04/2026
(Foto: Reprodução) Viktor Orbán e Peter Magyar
REUTERS/Bernadett Szabo
Incensado pelos presidentes Donald Trump e Vladimir Putin como um modelo da extrema direita populista na Europa, o primeiro-ministro da Hungria corre, pela primeira vez em 16 anos, o risco real de ser desbancado do cargo após quatro eleições vitoriosas.
Seu desafiante neste domingo (12) é um ex-aliado do partido Fidesz, que domina o poder no país: Péter Magyar, de 45 anos, tinha Orbán como ídolo e fazia parte de seu círculo íntimo até romper com ele, há dois anos e renovar o partido de centro-direita Tisza, que lidera as pesquisas independentes, com vantagem média de 13 pontos.
O fato de ter sido próximo ao premiê, e agora acusar de corrupto o sistema de governo, deu a Magyar legitimidade junto aos húngaros e acelerou sua ascensão política. Conhecedor dos meandros do Fidesz, o opositor prega a mudança e suas críticas a Orbán soam como música nos ouvidos de eleitores cansados da corrupção sistêmica, que arrasta o país para o último lugar na UE no ranking da ONG Transparência Internacional.
Na Hungria forjada por Orbán, a Constituição, o Judiciário, a mídia e as instituições em geral são controlados pelo Estado. O país é descrito como uma autocracia eleitoral pelo instituto sueco V-Dem, que atua como um banco de dados para mensurar a democracia.
Viktor Orban pode deixar poder na Hungria após 16 anos
Magyar soube explorar a insatisfação dos húngaros com a economia estagnada, custo de vida alto, salários congelados e denúncias sobre o enriquecimento ilícito de funcionários do Fidesz, e manter-se distante de temas sensíveis, como a perseguição à comunidade LGBTQIA+. O perfil conservador do opositor se alinha à postura rígida em relação à imigração, prometendo, por exemplo, manter erguida a barreira na fronteira sul do país.
Ele se compromete, no entanto, a restaurar o Estado de Direito para garantir a independência dos tribunais, a liberdade de imprensa e das universidades. Longe de ser pró-UE, pretende reconstruir os laços rompidos com o bloco, começando pela liberação dos fundos do bloco destinados ao país — cerca de 17 bilhões de euros —, que foram bloqueados por violações da Hungria às normas comunitárias.
Não será fácil. A vantagem considerável nas pesquisas não garante vitória nem as mudanças prometidas por Magyar, que precisaria de maioria absoluta no Parlamento para reformular a Constituição. Alterações no sistema eleitoral foram maquinadas para beneficiar o Fidesz, relatam os pesquisadores Liana Fix e Benjamin Harris, do think tank Council on Foreign Relations.
“Por meio de uma combinação de manipulação de distritos eleitorais e alteração das regras de entrada no Parlamento, Orbán garantiu que seus redutos eleitorais sejam super-representados e que os partidos de oposição enfrentem uma batalha mais difícil pelo poder”, ponderam em artigo.
Com debates televisivos abolidos na Hungria, restou a Magyar percorrer o país fazendo uma média de seis comícios por dia e a convicção de que desmantelará o sistema autocrático da gestão Orbán, sob o lema “O Tisza está transbordando”.
“Acredito que o Tisza terá uma vitória eleitoral esmagadora, porque nem mesmo os eleitores do Fidesz querem que nosso país seja um estado fantoche da Rússia, uma colônia, uma fábrica de montagem, em vez de pertencer à Europa”, assegurou Magyar em entrevista à agência Associated Press.
Como chefe de governo mais longevo da União Europeia, Orbán é também o líder mais alinhado a Putin e busca insistentemente travar o apoio financeiro do bloco à Ucrânia. A relação próxima entre os dois líderes inflama os rumores de interferência nas eleições deste domingo.
Outro poderoso aliado, o presidente Trump, despachou esta semana seu vice-presidente para Budapeste para tentar dar uma guinada na campanha de Orbán. Num dos comícios, JD Vance telefonou para o chefe, que falou diretamente aos correligionários do premiê, a quem não economizou elogios: “Sou um grande fã do Viktor, estou com ele em todos os sentidos, os EUA estão com ele em todos os sentidos.”
Este contexto reflete como a a eleição deste domingo no pequeno país europeu de 10 milhões, importa para EUA, Rússia, União Europeia e Ucrânia: a despeito de Viktor Orbán ou Péter Magyar, todos querem sair vitoriosos do pleito.