O que é e o que faz um aiatolá? E o líder supremo do Irã?
02/03/2026
(Foto: Reprodução) Aiatolá Alireza Arafi é o novo líder supremo
Mostafa Meraji via Wikimedia Commons
A morte do aiatolá Ali Khamenei no fim de semana, em meio à escalada do confronto entre Irã, Estados Unidos e Israel, abriu uma crise inédita na cúpula do regime iraniano. Líder supremo desde 1989, ele ocupava o posto mais poderoso do país — acima do presidente e do Parlamento.
O aiatolá Ali Khamenei foi o segundo a exercer o cargo de líder supremo do país desde a Revolução Islâmica de 1979. Agora, sob comando interino, a república islâmica precisa escolher um novo ocupante para a função de líder supremo que concentra autoridade religiosa e política. O próximo ocupante deve ser escolhido também entre os aiatolás.
Mas, afinal, o que é um aiatolá e por que esse cargo tem tanto peso no Irã?
O que é um aiatolá
Um aiatolá é um título honorífico dado a clérigos muçulmanos xiitas de alto escalão. O nome pode ser traduzido como "sinal de Deus" ou "reflexo de Deus". Antes reservado a um pequeno número de religiosos, atualmente ele é dado a milhares de xiitas que atingiram determinado patamar de estudos dentro da religião.
O título é profundamente vinculado a um conceito de herança dos saberes de Maomé, fundador do Islã. Na comunidade sunita, não existem aiatolás porque há há a crença em algum tipo de sucessão legítima, mesmo que divina, de uma linhagem encarregada de guardar os conhecimentos do profeta.
O que é um líder supremo do Irã?
No Irã, desde a Revolução de 1979 um colégio de clérigos chamado Assembleia dos Peritos, constituído por aiatolás, concentra o poder político. Dentre eles, um aiatolá é escolhido como líder supremo do país.
Apesar de o país ter um presidente, o líder supremo do Irã é um aiatolá que tem poder de veto sobre decisões de todos os poderes da República.
Na teoria, o líder supremo responde à Assembleia dos Peritos, que é composta por 88 membros e tem a prerrogativa — além de escolher o líder — de supervisionar o comportamento do líder supremo e até destituí-lo, se achar necessário.
Os membros da Assembleia dos Peritos são escolhidos por voto, mas só assumem caso sejam aprovados pelo Conselho dos Guardiães, composto por 12 membros, entre altos clérigos e juristas da Lei Islâmica ("sharia") — o próprio líder supremo nomeia seis clérigos, e o chefe do Judiciário nomeia seis juristas.
Desenhado dessa forma, o sistema político do Irã cria uma rede de poder centralizada no líder supremo, que, na prática, não enfrenta nenhuma oposição aberta. Desde 1979, só dois líderes supremos comandaram o país: o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da revolução, e o aiatolá Ali Khamenei, escolhido após a morte de Khomeini, em 1989,
O regime no Irã funciona como um misto entre uma república e a liderança religiosa. Ou seja, o país tem um presidente, mas ele é supervisionado por uma autoridade religiosa máxima -- que é o líder supremo.
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O que faz o líder supremo
Os poderes do líder supremo estão previstos na Constituição iraniana. Pelo artigo 110, cabe a ele ser a autoridade máxima e ser a última palavra em tudo que é importante no país. Por exemplo, ele:
comanda as Forças Armadas;
pode declarar guerra ou paz;
define diretrizes da política externa;
nomeia chefes do Judiciário e da mídia estatal;
indica parte dos membros de órgãos estratégicos.
O líder supremo exerce influência direta ou indireta sobre praticamente todos os centros de poder do país.
➡️ Na prática, ele está acima do presidente e pode permanecer no cargo por tempo indeterminado.
Se tem um aiatolá, qual é o papel do presidente?
O presidente da República, cargo ocupado por Masoud Pezeshkian, é eleito pelo voto popular.
Ele cuida da administração cotidiana do país: economia, políticas públicas, relações diplomáticas e gestão do governo.
No entanto, ele não pode contrariar o líder supremo em questões consideradas estratégicas, como defesa e política internacional.
➡️ Ou seja: existe uma eleição que dá aos país tons de democracia, mas o poder final não está com o presidente.
Líder supremo interino
Com a morte de Ali Khamenei, o país está sob liderança interina do aiatolá Alireza Arafi, que era um dos homens de confiança do líder supremo. Membro do Conselho dos Guardiães, ele segue no poder até que a Assembleia dos Peritos defina o sucessor.
E essa é uma decisão é delicada. O líder supremo não é apenas uma figura religiosa: ele concentra o poder político, militar e institucional do Irã. Em meio a uma escalada de tensão com Estados Unidos e Israel, a escolha pode influenciar diretamente os rumos do conflito e o futuro da república islâmica.