Madame Satã diz que não teve contato com Vorcaro e que apenas alugou espaço para festa investigada pela PF
11/09/2026
(Foto: Reprodução) Vorcaro pediu para Sicário apagar vídeo no Instagram sobre festa em boate de SP, diz PF
Montagem/g1
O clube Madame, tradicional casa noturna da Bela Vista, no Centro de São Paulo, afirmou nesta sexta-feira (11) que não teve contato ou negociação direta com o banqueiro Daniel Vorcaro para a realização de uma festa privada de Halloween em 2023 que passou a ser citada na investigação da Polícia Federal (PF) sobre o caso Banco Master.
Em nota de esclarecimento, a casa, conhecida historicamente como Madame Satã, disse que o espaço foi alugado para uma agência ou produtora de eventos terceirizada, mediante contrato formal, e que a organização da festa, a lista de convidados e a condução do evento ficaram sob responsabilidade dos contratantes (leia mais abaixo).
A manifestação ocorre após a divulgação de informações sobre a festa, realizada em 31 de outubro de 2023, no endereço da casa, na Rua Conselheiro Ramalho, 873. A revista piauí revelou na noite de quinta-feira (10) mensagens em que Vorcaro tratava da organização do evento e de convidados.
Documentos da investigação da PF, aos quais o g1 teve acesso após o levantamento do sigilo de investigações relacionadas ao Banco Master, mostram ainda que Vorcaro pediu a um homem chamado de “Sicário” que apagasse uma publicação no Instagram sobre a festa.
Segundo a direção do Madame Underground Club, a casa funciona também como espaço para locações quando não há programação cultural própria.
Reprodução
A PF registrou no relatório que a publicação tratava, aparentemente, de uma festa realizada por Vorcaro (leia mais abaixo).
➡️As informações da investigação da PF foram disponibilizadas após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça levantar o sigilo das principais investigações relacionadas ao Banco Master que tramitam na Corte nesta quinta.
Organização do evento
Segundo a direção do clube Madame, a casa funciona também como espaço para locações quando não há programação cultural própria.
Nesses períodos, afirma a nota, o imóvel pode ser usado para eventos corporativos, produções audiovisuais, sessões de fotos e comemorações privadas.
No caso da festa de outubro de 2023, porém, a administração diz que sua atuação ficou restrita à locação da infraestrutura.
“Não houve contratação ou negociação direta entre a administração do clube e a pessoa física mencionada nas reportagens recentes”, afirmou a casa, em referência a Vorcaro.
O Madame também afirmou que a locação de suas instalações “não representa apoio, participação ou envolvimento do clube com atividades, posicionamentos ou condutas dos respectivos contratantes e convidados”.
A casa disse repudiar qualquer tentativa de associar sua marca a ilícitos e afirmou que os organizadores eram responsáveis pela lista de convidados e pela condução do evento.
O clube não informou, na nota, qual foi a produtora responsável pela contratação do espaço.
Pedido para apagar vídeo
O g1 revelou nesta sexta-feira (11) que um relatório da PF registra uma conversa entre Vorcaro e Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, sobre uma publicação no Instagram relacionada à festa.
Em novembro de 2023, o banqueiro enviou a Felipe Mourão o link de uma publicação e escreveu:
“Derrubar esse.”
O conteúdo era um vídeo sobre uma apresentação dos DJs Solomun, Vintage Culture e Swedish House Mafia. A legenda dizia que os artistas haviam tocado em uma festa particular realizada no clube Madame, também conhecido como Madame Satã.
Conversa Sicário e Vorcaro (imagem foi borrada em para retirar o nome da repórter que baixou o documento)
STF
A publicação foi feita pelo perfil @anatrackid, dedicado a notícias e curiosidades sobre música eletrônica.
Segundo o relatório, Vorcaro e Mourão conversaram sobre a possibilidade de retirar o conteúdo. Em determinado momento, o banqueiro demonstrou dúvida sobre a ação.
Mourão respondeu:
“Ué, você quem manda.”
O trecho disponível no relatório não mostra uma decisão posterior de Vorcaro. A publicação, porém, não foi apagada e continua disponível no Instagram.
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O episódio aparece em uma investigação mais ampla da PF sobre a atuação de pessoas próximas a Vorcaro para monitorar e remover conteúdos de redes sociais que contrariassem os interesses do banqueiro.
Outros perfis
Vorcaro também solicitou ao Sicário outras vezes que monitorasse ou apagasse perfis nas redes sociais.
Segundo o relatório, após ser bloqueado por uma mulher no Instagram, ele ordenou que a conta dela fosse acompanhada continuamente para que pudesse agir caso fossem feitas publicações desfavoráveis. É desse assunto que Sicário pergunta no print sobre o vídeo da festa.
Em outro episódio, Vorcaro determinou “derrubar e ir pra cima”. Mourão então diz que acionou hackers, chamados de “os meninos”, até conseguir o banimento da conta no Instagram.
O grupo também teria derrubado o WhatsApp de um desafeto e invadido sua conta no iCloud após comentários críticos feitos por ele em um grupo.
Já para derrubar um perfil falso que usava dados da namorada de Vorcaro e identificar seu autor, segundo a PF, o Sicário teria usado um ofício fraudulento atribuído ao Ministério Público do Ceará para simular um pedido oficial à Meta. A solicitação foi enviada pelo e-mail institucional de uma servidora real e, no mesmo dia, a conta foi banida.
De Madame Satã a Madame Underground
O endereço da festa tem uma história que remonta a mais de quatro décadas.
A casa foi inaugurada em 21 de outubro de 1983, como Restaurante Cultural Madame Satã. No ano seguinte, com a entrada do produtor José Claudio Mendes na sociedade, o espaço ganhou pista de dança, palco e áreas destinadas a apresentações e performances.
O local rapidamente se tornou um dos principais pontos da cena underground de São Paulo.
Pelo palco passaram bandas que se tornariam importantes para o rock brasileiro, como Legião Urbana, RPM, Ira!, Ultraje a Rigor, Capital Inicial, Plebe Rude, Inocentes, Fellini e Engenheiros do Hawaii.
Segundo o histórico da própria casa, 79 bandas se apresentaram no Madame Satã entre 1984 e 1986.
O espaço também reunia punks, góticos, músicos, artistas, performers e público LGBT+. A FAU-USP inclui o Madame Satã entre os lugares de memória LGBT+ da cidade.
O nome da casa fazia referência a João Francisco dos Santos, conhecido como Madame Satã, personagem da boemia carioca.
O espaço passou por períodos de fechamento e por outros nomes, como Morcegóvia e The The.
Depois de uma nova fase de encerramento, o endereço foi reaberto em 2012 com o nome Madame. A casa manteve elementos associados à atmosfera do antigo clube, com programação ligada ao rock, à música eletrônica e à cultura alternativa.
Atualmente, o estabelecimento se apresenta como Madame Underground Club.