De aliados a adversários: entenda a disputa entre Brandão e Dino no Maranhão
19/08/2026
(Foto: Reprodução) De aliados a adversários: entenda a disputa entre Brandão e Dino no Maranhão
Reprodução/Site Oficial/Carlos Brandão
Por quase duas décadas, o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, foram aliados políticos no estado. Brandão foi vice-governador nas duas gestões de Dino e assumiu o governo em 2022, quando o então governador deixou o cargo para disputar o Senado.
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➡️ O que antes era uma parceria política se transformou em uma disputa que colocou os dois em lados opostos da política maranhense, com novos capítulos com embates que chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF) e envolvem o Tribunal Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA).
O capítulo mais recente é um pedido da defesa de Carlos Brandão ao STF para suspender uma investigação sobre a indicação de Flávio Costa para o Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA), em 2025 e conduzida sob supervisão do ministro Flávio Dino.
🔎 O TCE-MA é formado por sete conselheiros: quatro são escolhidos pela Assembleia Legislativa e três pelo governador, com aprovação dos deputados, conforme as regras previstas na Constituição Estadual.
Flávio Dino, do STF, determina afastamento do presidente do Tribunal de Contas do Maranhão
O inquérito foi aberto pela Polícia Federal em agosto de 2025, por determinação de Dino, para apurar possíveis irregularidades nas nomeações para o TCE-MA.
A defesa de Brandão sustenta que uma investigação envolvendo um governador deve tramitar no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pede a suspensão do procedimento ou o envio do caso ao órgão competente.
O pedido ocorre ocorre um dia depois de Dino determinar o afastamento, por 180 dias, de Daniel Brandão, presidente do TCE-MA e sobrinho do governador, em outra frente investigativa.
Carlos Brandão e Daniel Brandão
Divulgação e divulgação/TCE-MA
Amizade política e início do desgaste
Flávio Dino e Carlos Brandão juntos em evento político quando ainda eram aliados
Reprodução/Internet
A relação política entre Brandão e Dino começou antes da eleição de Dino para deputado federal, em 2006. Brandão relatou que ajudou a viabilizar a candidatura do então juiz federal na região de Caxias, região dos Cocais, no Maranhão.
Na época, Brandão tinha uma trajetória pública onde havia assumidos cargos públicos de liderança, desde os anos 90, em secretarias da gestão do ex-governador do Maranhão, José Reinaldo Tavares.
A parceria se consolidou quando Brandão foi eleito vice-governador nas chapas de Flávio Dino em 2014 e 2018. Em abril de 2022, Dino deixou o governo para disputar o Senado, e Brandão assumiu o Palácio dos Leões. Na eleição daquele ano, Brandão foi eleito governador no primeiro turno, com Felipe Camarão (PT) como vice.
Os primeiros sinais públicos de desgaste surgiram na montagem do novo governo e na disputa pela presidência da Assembleia Legislativa do Maranhão (Alema) em 2023. O então presidente na época, Othelino Neto, aliado de Flávio Dino, buscava a reeleição contra a deputada estadual Iracema Vale, apoiada por Brandão.
Em publicação à época, Othelino afirmou que, após discussões, havia sido definida a “unidade” em torno da candidatura de Iracema e em seguida, retirou a candidatura para apoiar a deputada. Ela foi eleita presidente em fevereiro de 2023, com a maioria dos votos.
Othelino passou a integrar o governo como secretário de Representação Institucional do Maranhão em Brasília, mas deixou o cargo em novembro daquele ano para retornar ao mandato de deputado estadual.
Carlos Brandão (à esquerda), Othelino Neto (centro) e Felipe Camarão (à direita).
Reprodução/Site Oficial/Carlos Brandão
A tensão aumentou depois que Dino tomou posse no STF, em fevereiro de 2024. A Corte passou a analisar ações sobre as regras de escolha de conselheiros do TCE-MA, e uma delas ficou sob a relatoria do ministro.
Em março de 2024, Dino suspendeu o andamento de um processo de indicação. O governo trabalhava pela escolha de Flávio Costa, enquanto o grupo ligado a Dino tinha entre seus nomes o deputado estadual Carlos Lula (PSB).
O episódio passou a alimentar críticas de aliados de Brandão à atuação de Dino em processos com repercussão na política maranhense. O entorno do ministro sustentava que ele estava afastado da atividade partidária e que suas decisões eram exclusivamente jurídicas.
A divisão também ficou evidente nas eleições municipais de 2024. Em Colinas, reduto eleitoral de Carlos Brandão, o deputado federal Márcio Jerry (PCdoB), aliado de Flávio Dino quando ele ainda atuava na política, apoiou a candidatura do irmão, João Haroldo Barroso. A disputa terminou com a vitória de Renato Santos, ligado ao grupo de Brandão.
No mesmo período, aliados de Dino perderam espaço no governo. Felipe Camarão (PT), então vice-governador do Maranhão, deixou a Secretaria de Educação e não retornou ao cargo. Joslene Rodrigues, esposa de Márcio Jerry, também saiu da Secretaria das Cidades.
Em novembro de 2024, Othelino voltou a disputar a presidência da Assembleia Legislativa contra Iracema Vale. A votação terminou empatada em 21 votos cada, e ela venceu pelo critério de desempate, que determina que o candidato de maior idade seja eleito.
O resultado foi levado ao STF, por Othelino Neto, onde ficou em análise por um ano. Segundo a decisão do STF, ficou determinado que a regra prevista de maior idade no regimento da Casa deveria ser absoluta, ou seja, a vitória seria de Iracema Vale.
Sucessão consolidou ruptura
Felipe Camarão (vice-governador), Carlos Brandão (governador) e Flávio Dino (ministro do STF) juntos no dia da eleição em 2022.
Reprodução/Site Oficial/Carlos Brandão
A sucessão estadual passou a ocupar o centro da crise. Aliados de Dino e integrantes do PT afirmavam que havia um entendimento para que Brandão deixasse o governo antes do fim do mandato e disputasse o Senado, o que abriria caminho para que Felipe Camarão assumisse o Palácio dos Leões.
Brandão negou ter assumido esse compromisso e passou a trabalhar pela candidatura de seu sobrinho, Orleans Brandão (MDB).
Em março de 2025, o governador reconheceu publicamente que havia se afastado de Dino. Nos meses seguintes, exonerações reduziram ainda mais o espaço de aliados do antigo governador na administração estadual.
Em outubro de 2025, a divulgação de gravações envolvendo os deputados federais Rubens Pereira Júnior (PT) e Márcio Jerry (PCdoB) e Diego Galdino, ex-secretário da Casa Civil no Maranhão no governo Flávio Dino e ex-secretário adjunto no Ministério da Justiça, o que ampliou o conflito entre os grupos.
Brandão afirmou ter recebido uma proposta que relacionaria acordos políticos a uma solução para “vagas do TCE” e acusou integrantes do grupo adversário de pressão e “chantagem”.
Em outubro de 2025, a divulgação de gravações atribuídas aos deputados federais Rubens Pereira Júnior (PT) e Márcio Jerry (PCdoB) e a Diego Galdino, ex-secretário da Casa Civil do Maranhão no governo Flávio Dino e ex-secretário adjunto do Ministério da Justiça, ampliou a tensão entre os grupos políticos.
Os áudios foram divulgados pelo deputado estadual Yglésio Moyses (PRTB). Segundo ele, os trechos fazem referência a negociações políticas envolvendo as cidades de Colinas e Barreirinhas e ao atendimento de pedidos de deputados estaduais. Em um dos áudios atribuídos a Márcio Jerry, é mencionada a necessidade de fazer gestos para criar um “clima de paz”.
Outro trecho, atribuído a Rubens Júnior, cita um suposto acordo envolvendo Colinas e os deputados estaduais Carlos Lula, Rodrigo Lago e Júlio Mendonça, além da frase “liberar o TCE”. Já no áudio atribuído a Diego Galdino, é mencionada uma conversa com “Flávio” e orientações para falar com Felipe e Brandão sobre Colinas.
A divulgação das gravações provocou reação dos dois grupos. Os aliados de Dino afirmaram ter sido vítimas de gravações clandestinas. Brandão, por sua vez, afirmou ter recebido uma proposta que relacionaria acordos políticos a uma solução para “vagas do TCE” e acusou integrantes do grupo adversário de pressão e “chantagem”.
Deputado Yglésio apresenta áudios polêmicos que citam autoridades dos três poderes
Naquele mesmo mês, Márcio Jerry anunciou a entrega da Secretaria das Cidades, e Rubens Pereira, pai de Rubens Pereira Júnior, também decidiu deixar o governo.
Em fevereiro de 2026, Brandão anunciou que permaneceria no cargo até o fim do mandato. Com isso, Felipe Camarão não assumiria antecipadamente o governo. Em seguida, Brandão avançou com o projeto eleitoral de Orleans Brandão, enquanto Camarão manteve sua pré-candidatura.
O pedido apresentado agora ao STF recoloca Dino no centro de um conflito direto com o governador.