Atlas da Violência: Brasil tem menor taxa de homicídios em 11 anos, mas ainda registra 42,6 mil casos

  • 26/05/2026
(Foto: Reprodução)
Brasil registra menor número de homicídios da série histórica O Brasil atingiu, em 2024, a menor taxa de homicídios em 11 anos, segundo o Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgado nesta terça-feira (26). O número absoluto de mortes é de 42.590 homicídios registrados oficialmente no país no ano passado, o equivalente a 20,1 assassinatos a cada 100 mil habitantes. A redução aparece tanto na comparação anual quanto em recortes mais longos da série histórica. Em relação a 2023, a taxa caiu 7,4%. Em números absolutos, a queda foi de 6,9%: no ano anterior, o Brasil havia registrado 45.747 homicídios. Infográfico - Taxa de homicídios no Brasil em 2024. Arte/g1 🔎 Entre os fatores que ajudam a explicar o recuo dos homicídios, segundo os pesquisadores, estão mudanças nas políticas de segurança estaduais e municipais, baseadas em diagnósticos de onde o crime ocorre; alterações nas dinâmicas do crime organizado, com tréguas entre facções em algumas regiões; e o envelhecimento da população, já que os jovens são o principal perfil das vítimas de homicídio. ‼️O Atlas, porém, destaca que a queda deve ser lida com cautela. Isso porque cresceram as mortes violentas por causa indeterminada — categoria que pode ocultar homicídios não classificados oficialmente. Segundo estimativa dos pesquisadores, o país pode ter registrado 49.673 homicídios em 2024, o que reduziria a queda em relação a 2023 para apenas 0,4%. "Os remédios que aparentemente funcionam, ou pelo menos funcionaram em outras cidades e países, e que a ciência diz que funcionam, precisam ser considerados. É preciso fazer política baseada em evidência e montar um sistema de gestão que integre ações de curto prazo, com repressão qualificada da polícia, e ações intersetoriais de prevenção social à violência”, afirma Daniel Cerqueira, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e coordenador do Atlas da Violência. “Isso tem sido feito há alguns anos no Brasil, aqui e acolá, em alguns estados e municípios, e é um processo que está tomando cada vez mais fôlego”, completa. Nos últimos cinco anos, entre 2019 e 2024, a taxa de homicídios caiu 8,6%, enquanto o número de vítimas recuou 6,4%. Em dez anos, a tendência também é de queda. Entre 2014 e 2024, a taxa nacional de homicídios caiu 33,4%, enquanto o total de mortes recuou 29,6%. Agora no g1 Segundo o relatório, a redução recente foi “ampla, mas não homogênea”. A violência letal continua concentrada em parte das regiões Norte e Nordeste, enquanto estados do Sul, do Sudeste e o Distrito Federal mantêm os menores índices do país (veja mais detalhes abaixo). Os estados mais e menos violentos Infográfico - Mapa mostra taxa de homicídios no Brasil em 2024 por estados. Alberto Correa - Arte/g1 Em 2024, 18 unidades da federação tiveram taxa de homicídios acima da média nacional, de 20,1 mortes por 100 mil habitantes. As maiores taxas foram registradas nos seguintes estados: Amapá: 45,7; Bahia: 40,9; Pernambuco: 37,3; Alagoas: 35,9; Ceará: 34,3. Na outra ponta, veja onde foram registrados os menores níveis de violência letal em 2024: São Paulo: 6,6; Santa Catarina: 8,1; Distrito Federal: 10,3; Minas Gerais: 12,8; Rio Grande do Sul: 15,2. Onde a taxa mais caiu e onde aumentou em comparação com 2023 A comparação de 2024 com 2023 mostra outro recorte: não o nível de violência em cada estado, mas a variação da taxa de homicídios de um ano para o outro. Nesse recorte, a melhora entre 2023 e 2024 foi relativamente disseminada, segundo o Atlas. Entre as taxas estaduais, apenas Maranhão, com alta de 7,6%, e Ceará, com aumento de 5,2%, tiveram crescimento relevante. São Paulo permaneceu estável. As maiores quedas na taxa de homicídios foram registradas nos seguintes estados: Amapá: -30%; Tocantins: -26,7%; Sergipe: -24,8%; Roraima: -22,8%; Acre: -20,5%. Em números absolutos, as maiores reduções ocorreram no Rio de Janeiro, com 772 homicídios a menos; na Bahia, com 555 a menos; no Rio Grande do Sul, com 280 a menos; em Goiás, com 229 a menos; e no Amazonas, também com 229 a menos. LEIA TAMBÉM: Veja MAPA com os estados mais e menos violentos do Brasil, segundo o Atlas da Violência Homicídios ocultos tiram SP do topo dos menos violentos; veja ranking Armas de fogo foram usadas 70% dos homicídios no Brasil em 2024 Violência sexual é 45,5% das agressões contra meninas de 10 a 14 anos 1 pessoa negra é assassinada a cada 16 minutos no Brasil, diz Atlas Em dez anos, a taxa nacional de homicídios caiu 33,4% Na série completa de 2014 a 2024, a taxa nacional de homicídios caiu 33,4%. O Amapá foi o caso mais destoante no período: foi a única unidade da federação com aumento expressivo tanto da taxa de homicídios, de 30,2%, quanto do número absoluto de mortes, de 41,8%. Pernambuco também terminou 2024 com taxa ligeiramente superior à de 2014, alta de 1,1%. As maiores quedas na taxa de homicídios entre 2014 e 2024 ocorreram no Distrito Federal, com recuo de 66,2%; em Goiás, com 58,4%; em Sergipe, com 54,6%; em São Paulo, com 53,2%; e no Rio Grande do Norte, com 51,6%. Número de homicídios pode ser maior O Atlas também faz uma ressalva sobre os dados oficiais. O relatório afirma que a análise dos homicídios registrados no Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde, fica prejudicada quando uma parcela das mortes violentas não tem a intencionalidade identificada. Esses casos são classificados como mortes violentas por causa indeterminada. Para contornar esse problema, os pesquisadores usam uma metodologia baseada em aprendizado de máquina para estimar quantas dessas mortes podem, na verdade, ter sido homicídios. Esses casos são classificados no relatório como homicídios ocultos. Com essa metodologia, o Brasil teria registrado 49.673 homicídios estimados em 2024. A taxa estimada foi de 23,4 mortes por 100 mil habitantes. Nesse cenário, a queda em relação a 2023 foi de apenas 0,4%, bem menor do que a redução de 7,4% apontada pelos registros oficiais. A diferença entre a taxa estimada e a taxa registrada chegou a 3,3 pontos em 2024. Segundo o Atlas, esse patamar ficou acima da diferença média observada entre 2014 e 2017, de 1,8 ponto, e também acima da média de 2019 a 2024, de 2,8 pontos. Para os pesquisadores, isso indica piora recente na capacidade de identificar corretamente a intencionalidade das mortes violentas. Homicídios ocultos quase dobraram Em 2024, os homicídios ocultos aumentaram de 3.755 para 7.083, alta de 88,6%. A taxa de homicídios ocultos passou de 1,8 para 3,3 por 100 mil habitantes, crescimento de 83,3%. Com isso, os homicídios ocultos passaram a responder por 14,3% dos homicídios estimados em 2024. Em 2023, essa proporção era de 7,6%. No acumulado entre 2014 e 2024, o país somou cerca de 55,2 mil homicídios ocultos. No mesmo período, o total de homicídios estimados chegou a 638,8 mil. Quando se considera a taxa estimada, e não apenas os registros oficiais, as maiores taxas de homicídio em 2024 foram observadas em: Amapá: 47,1; Ceará: 43,7; Bahia: 42,6; Alagoas: 39,8; Pernambuco: 38,6. As menores taxas de homicídio estimadas foram registradas em: Santa Catarina: 8,8; Distrito Federal: 10,9; São Paulo: 12,8; Rio Grande do Sul: 15,9; Minas Gerais: 18,5. Ao todo, 16 unidades da federação ficaram acima da taxa nacional estimada, de 23,4 homicídios por 100 mil habitantes. Minas, Ceará e SP têm maiores altas na taxa que inclui homicídios ocultos Pela taxa estimada, os maiores aumentos entre 2023 e 2024 ocorreram nos seguintes estados: Minas Gerais: +25%; Ceará: +23,8%; São Paulo: +10,3%; Maranhão: +7,8%; Alagoas: +3,6%. Veja abaixo onde foram registradas as maiores quedas: Amapá: -28,3%; Tocantins: -22,3%; Sergipe: -21,4%; Acre: -20,9%; Roraima: -16,5%. Entre 2019 e 2024, o Brasil reduziu em 6% o número estimado de homicídios e em 8,2% a taxa estimada. No mesmo período, porém, a queda dos homicídios ocultos foi mais modesta: 3,8% no número de casos e 8,3% na taxa. 99 cidades concentram metade dos homicídios O retrato municipal mostra que a violência letal segue muito concentrada no território. Em 2024, o Atlas analisou 5.570 municípios com informação válida. Desse total, 1.578 não registraram nenhum homicídio estimado no ano. Ainda assim, a média municipal foi de 20 homicídios por 100 mil habitantes. Já em metade dos municípios brasileiros, a taxa ficou abaixo de 15,3. Segundo o relatório, essa diferença mostra que um grupo relativamente pequeno de cidades com índices muito elevados de violência acaba puxando a média nacional para cima. Em 2024, 50% dos homicídios do país ocorreram em apenas 99 municípios, o equivalente a cerca de 1,8% das cidades brasileiras. Os 10 municípios com maior número absoluto de homicídios concentraram 19,4% do total nacional. Municípios com mais de 100 mil habitantes tiveram maior taxa de homicídios O Atlas dividiu os municípios em três grupos: pequenos, com até 100 mil habitantes; médios, com mais de 100 mil e até 500 mil habitantes; e grandes, com mais de 500 mil habitantes. Em 2024, os municípios médios tiveram a maior taxa média de homicídios estimados: 24,1 por 100 mil habitantes. Eles ficaram acima dos municípios grandes, com taxa de 23,2, e dos pequenos, com 19,7. Nos municípios pequenos, 1.578 não tiveram homicídios estimados em 2024. Outros 139 não registraram homicídios oficialmente, mas apareceram com homicídios ocultos. Além disso, 2.139 tiveram taxas inferiores a 10 por 100 mil habitantes. Na outra ponta, 477 municípios pequenos registraram taxas iguais ou superiores a 50 por 100 mil. Entre os municípios médios, 11 tiveram taxas acima de 60 homicídios por 100 mil habitantes, e 56 ficaram abaixo de 10. Entre os municípios grandes, seis cidades tiveram taxas abaixo de 10 por 100 mil. Segundo o Atlas, os resultados sugerem que a violência letal mais intensa não se concentra necessariamente nas maiores metrópoles, mas frequentemente em municípios de porte intermediário. Maranguape, Jequié e Maracanaú lideram ranking de assassinato entre cidades com mais de 100 mil habitantes Entre os 336 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, as taxas de homicídio estimado variaram de 2 a 87,2 por 100 mil habitantes. Ao todo, 46 municípios desse grupo tiveram taxas acima de 40 homicídios por 100 mil habitantes. Outros 62 ficaram abaixo de 10. Além disso, 194 municípios apresentaram taxas inferiores à referência nacional de 23,4 homicídios por 100 mil habitantes. Entre as cidades com mais de 100 mil habitantes, as maiores taxas de homicídio estimado foram registradas em: Maranguape (CE): 87,2; Jequié (BA): 79,4; Maracanaú (CE): 74,1; Itapipoca (CE): 74; Caucaia (CE): 72,9. Entre os 20 municípios mais violentos desse grupo, 17 estavam no Nordeste, dois no Norte e um no Centro-Oeste. A Bahia respondeu por 10 cidades nesse ranking, e o Ceará, por cinco. Na outra ponta, as menores taxas entre municípios com mais de 100 mil habitantes foram registradas em: Jaraguá do Sul (SC): 2; Brusque (SC): 2,6; Santa Bárbara d’Oeste (SP): 3,2; Lavras (MG): 3,6; Bragança Paulista (SP): 3,8. Os 20 municípios com menores taxas estavam todos no Sudeste e no Sul: 15 no Sudeste e cinco no Sul. A taxa média dos 20 municípios mais violentos foi de 64,7 homicídios por 100 mil habitantes. Já a dos 20 menos violentos ficou em 4,9. A diferença entre os extremos foi de 13,2 vezes. Salvador teve a maior taxa entre as capitais Em 2024, entre as capitais, as taxas de homicídio estimado variaram de 9,7 a 52,7 por 100 mil habitantes em 2024. A média foi de 26,6. Das 27 capitais, 14 tiveram taxa acima da referência nacional de 23,4. As maiores taxas foram registradas em: Salvador: 52,7; Maceió: 45,9; Macapá: 45,6; Recife: 45,5; Fortaleza: 42,2. As menores taxas ocorreram nas seguintes capitais: Florianópolis: 9,7; Distrito Federal: 10,9; Curitiba: 13,2; Goiânia: 14,7; São Paulo: 15,3. O Atlas também chama atenção para o peso dos homicídios ocultos em algumas capitais do Centro-Sul. Em São Paulo, foram estimados 1.539 homicídios ocultos, o equivalente a 84,7% dos homicídios estimados na capital. Em Belo Horizonte, foram 441 homicídios ocultos, ou 65,2% do total estimado. Também aparecem com peso relevante de homicídios ocultos o Rio de Janeiro, com 17% do total estimado; Fortaleza, com 16,1%; e Natal, com 15,9%. Por que há diferença entre os números? O Atlas usa os dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde. O número oficial de homicídios considera óbitos causados por agressão, intervenção legal e operações de guerra. O problema, segundo o relatório, é que nem sempre a causa básica de uma morte violenta é identificada. Quando isso acontece, o caso pode ser classificado como morte violenta por causa indeterminada. Para estimar os homicídios ocultos, os pesquisadores analisam características das vítimas, como idade, sexo, estado civil, escolaridade e município de residência, além de informações sobre a ocorrência, como instrumento usado, data e local do incidente. A partir disso, o modelo calcula a probabilidade de uma morte violenta sem causa determinada ter sido, na verdade, um homicídio. Segundo o Atlas, as diferenças entre os homicídios registrados, os homicídios estimados e os dados policiais decorrem, na maior parte das vezes, de problemas técnicos no compartilhamento de informações entre secretarias de saúde e de segurança pública. O relatório afirma que essas diferenças não significam, em geral, intenção de gestores estaduais de esconder dados.

FONTE: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/26/atlas-da-violencia-taxa-homicidios.ghtml


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